Psicologia Histórico-Cultural: por que demorou para se popularizar no Brasil?

Psicologia histórico-cultural: por que não se popularizou no Brasil?

A psicologia histórico-cultural tem ganhado visibilidade nas últimas décadas, especialmente no campo da educação. No entanto, quando se trata da clínica psicológica, sua presença ainda é tímida, quase marginal.

Por que essa teoria, nascida na União Soviética, com potencial revolucionário para pensar o sofrimento humano em sua dimensão social e histórica, demorou tanto para se firmar no Brasil? E mais: por que é urgente defender sua práxis clínica hoje?

Podemos encontrar algumas dessas respostas a partir da dissertação de mestrado de Ana Paula Vieira Faria e Claudia Aparecida Valderramas Gomes (2025), que analisaram teses e dissertações brasileiras sobre a clínica na psicologia histórico-cultural entre 2001 e 2021. O estudo revela um cenário de escassez, mas também de potência, que nos ajuda a entender os desafios e as promessas dessa abordagem no contexto da clínica contemporânea.

Clínica histórico-cultural: uma teoria silenciada

A psicologia histórico-cultural foi desenvolvida por Lev Vigotski e seus colaboradores nos anos 1920 e 1930, na União Soviética. Seus fundamentos estão enraizados no materialismo histórico-dialético de Marx, o que já aponta para uma psicologia comprometida com a transformação social, e não com a adaptação do indivíduo a condições alienantes.

No entanto, essa teoria sofreu forte censura durante o stalinismo. Muitos dos textos clínicos de Vigotski foram engavetados ou proibidos, dificultando sua difusão global. Foi apenas no final da década de 1980 e início dos anos 1990 que as obras de Vigotski começaram a chegar ao Brasil, num processo lento e parcial (Martins, 2013; Faria & Gomes, 2025).

Além disso, a forma como essas ideias foram recepcionadas contribuiu para limitar seu alcance clínico. Nos Estados Unidos, Vigotski foi lido principalmente por psicólogos da educação, como Jerome Bruner, sob uma ótica cognitivista. Na América Latina, com exceção de Cuba, a teoria chegou pelas vias da psicologia social e do desenvolvimento, sempre com um foco na escola e nas práticas pedagógicas (Lima, 2020).

Essa recepção parcial acabou negligenciando aspectos fundamentais do pensamento de Vigotski, como sua reflexão sobre a consciência, as emoções e a personalidade — elementos centrais para qualquer abordagem clínica. Como consequência, a psicologia histórico-cultural ficou conhecida no Brasil quase exclusivamente como uma teoria da educação.

Clínica histórico-cultural: qual é o seu diferencial no contexto brasileiro?

Abordagem histórico-cultural: uma visão da educação ou da clínica?

O estudo de Faria e Gomes (2025) mostra que, mesmo hoje, a maior parte dos grupos de pesquisa brasileiros que adotam a abordagem histórico-cultural está concentrada na área da educação. A clínica ainda é um território pouco explorado, com raríssimos grupos e linhas de pesquisa dedicadas especificamente à saúde mental sob essa perspectiva.

Mas isso não quer dizer que não exista uma clínica histórico-cultural. Pelo contrário. O que há é uma invisibilização de seus fundamentos, somada a uma apropriação tímida e muitas vezes incongruente dos conceitos vigotskianos. Muitas práticas clínicas que se reivindicam da teoria ainda usam técnicas importadas de outras abordagens, como a psicanálise ou a terapia cognitivo-comportamental, o que gera inconsistência metodológica.

Entretanto, a obra de Vigotski contém importantes contribuições para pensar a clínica. Ele atuou como diretor científico no Instituto de Defectologia, onde trabalhou com crianças com desenvolvimento atípico. Também deixou registros de casos clínicos e reflexões sobre a psicologia anormal (Vigotski, 2018; Bein et al., 2022). Portanto, é incorreto afirmar que a teoria soviética ignorou a clínica — o que faltou foi a tradução e apropriação desses escritos.

Como construir a clínica histórico-cultural?

A proposta clínico-terapêutica da psicologia histórico-cultural parte de uma pergunta fundamental: como o sofrimento humano é produzido nas relações sociais e como pode ser transformado a partir delas?

Para responder, Faria e Gomes (2025) propõem a categoria “atividade” como unidade de análise da clínica. Inspiradas na ontologia do trabalho em Marx (2013), as autoras mostram que toda atividade clínica envolve três dimensões: a finalidade (para que se atua), o objeto (sobre o que se atua) e os meios (com o que se atua).

Finalidade: transformação da consciência

A clínica histórico-cultural não se propõe apenas a reduzir sintomas. Seu objetivo é favorecer processos de tomada de consciência. Trata-se de ajudar o sujeito a entender a si mesmo como ser histórico, situado, afetado por relações sociais e, ao mesmo tempo, capaz de agir sobre elas.

Objeto: a consciência

Diferente de abordagens que tratam o inconsciente como estrutura fixa ou a psique como algo dado, a psicologia histórico-cultural entende a consciência como um processo em constante formação. Ela é construída nas relações sociais e mediada pela linguagem. O sofrimento, portanto, é interpretado como expressão de contradições vividas no campo social e simbólico.

Meios: linguagem e diálogo

O principal instrumento clínico, segundo os estudos analisados, é o diálogo — não apenas como conversa, mas como espaço de mediações simbólicas. A linguagem, nesse contexto, é uma ferramenta que permite reorganizar sentidos, ressignificar vivências e abrir novas possibilidades de ação.

É importante destacar que o psicólogo não é o “mediador”, ele promove a “mediação” — que ocorre por meio dos signos, das palavras, dos instrumentos culturais. Ou seja, o psicólogo histórico-cultural é o agente que maneja essas ferramentas para promover encontros transformadores.

Diferenciais da clínica histórico-cultural

Num contexto de crescente medicalização da vida, de patologização da diferença e de práticas clínicas centradas no indivíduo isolado, a psicologia histórico-cultural nos oferece uma alternativa potente. Ela rompe com a ideia de que o sofrimento é apenas um problema interno, um “defeito” a ser corrigido, e nos convida a enxergá-lo como expressão de contradições vividas nos vínculos, nas instituições e nas estruturas sociais.

Além disso, ela valoriza a singularidade do sujeito sem abrir mão da crítica social. Ao colocar a práxis — a unidade entre ação e consciência — no centro da clínica, ela resgata o potencial emancipatório da psicologia.

Contudo, para que essa clínica se fortaleça, é preciso enfrentarmos dois grandes desafios: (1) formar profissionais comprometidos com seus fundamentos teórico-filosóficos e (2) desenvolver técnicas próprias, coerentes com sua base materialista, que não reproduzam modelos de outras abordagens sem criticidade.

A psicologia histórico-cultural ainda está se fortalecendo no campo da clínica brasileira, mas suas raízes são profundas e promissoras. Ao defendê-la, não estou apenas escolhendo uma abordagem terapêutica, mas assumindo uma ética e uma política do cuidado: um compromisso com a transformação do sujeito e das condições que produzem sofrimento.

Mais do que uma técnica, essa clínica é um projeto de mundo.

Conheça meu trabalho como psicólogo histórico-cultural

Referências

BEIN, E. S. et al. Fundamentos de Defectologia. EDUNIOESTE, 2022.

FARIA, A. P. V.; GOMES, C. A. V. Práxis clínica na psicologia histórico-cultural: um estudo de teses e dissertações brasileiras. Revista de Psicologia, Fortaleza, v. 16, e025003, 2025.

LIMA, A. I. B. (Org.). Cartas para Vigotski: ensaios em psicologia clínica histórico-cultural. Fortaleza: EdUECE, 2020.

MARX, K. O capital – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

MARTINS, L. M. Os fundamentos psicológicos da pedagogia histórico-crítica e os fundamentos pedagógicos da psicologia histórico-cultural. Germinal, v. 5, n. 2, 2013.

VIGOTSKI, L. S. Teoria e método em psicologia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Raphael Granucci Pequeno
Raphael Granucci Pequeno

Psicólogo clínico da abordagem histórico-cultural, escritor e pesquisador

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